Entrevista // Teresa Cristina Maia Motta
A mente poderosa é sim capaz de aumentar a resistência do sistema imunológico. Pela mesma tese, nossos pensamentos e nossas crenças alterariam a química que circula por nosso corpo e, consequentemente, interfeririam no sistema de defesa. A conclusão seria óbvia: o que se pensa pode contribuir para a cura e controle de doenças, como crê a psiconeuroimunologia.
O que define a psiconeuroimunologia?
É uma ciência que tem mais ou menos uns 40 anos. Ela surgiu a partir de uma pesquisa feita por um psicólogo experimental, Robert Ader que usou dois grupos de ratinhos para mostrar que o sistema imunológico podia ser condicionado. Para um grupo, ele deu uma droga, a ciclosfosfamida, que suprimia o sistema imunológico, misturada em água com açúcar. Enquanto isso, os outros ratos foram bem tratados. O que aconteceu com o passar do tempo? Os ratos que tomaram a droga deprimiram o sistema imunológico. Depois de um tempo, o pesquisador retirou o medicamento e eles se recuperaram. Na outra etapa da pesquisa, Ader ofereceu para os ratos que tinham recebido a droga apenas água açecarada. E o que aconteceu? Eles começaram a passar mal e a deprimir o sistema imunológico da mesma maneira. Isso quer dizer, então, que a memória associada a determinado fato pode deprimir o sistema imunológico. Ele conclui o que a filosofia e a ciências mais antigas sempre falaram: a mente interfere na saúde. Muitas pesquisas surgiram desde então e a comunidade científica foi confirmando que os pensamentos, a psicologia, as terapias podem aumentar a ação do sistema imunológico.
Na prática, como é essa interferência da mente em nosso sistema de proteção?
A mente, no sentido neurofisiológico, se processa por meio das conexões cerebrais. A minha interpretação sobre um evento doloroso, imediatamente, passa para o sistema límbico, hipotálamo, hipófise, suprarrenal, sistema imunológico e cai na corrente sanguínea. A química traduzida por esses pensamentos de dor podem danificar os receptores celulares. Se, recorrentemente, eu tiver essa carga de interpretação de todos os episódios da minha vida, será gerada essa química que leva à depressão do sistema imunológico. Ele vai ficar mais vulnerável aos antígenos, aos agentes externos e a pessoa, sistemicamente, mais adoecida.
Quer dizer que os nossos pensamentos fragilizam e também podem fortalecer o sistema imunológico?
Não é o fato em si, a circunstância ou o evento que estamos enfrentando, mas a interpretação do fato que gera uma emoção, um sentimento ruim. O nosso medo deprime o sistema imunológico pela quantidade de hormônios estressores que caem na corrente sanguínea. O sistema imunológico fica, então, incompetente. Ele vai ter que lidar com esse excesso cortisol, adrenalina e outros hormônios que funcionam como antígenos, como agente estressor. O corpo fica lutando para voltar ao equilíbrio. Mas o que causa um estrago é a recorrência do nosso pensamento, de como a gente interpreta e lida com os fatos da vida.
Como aumentar as defesas do nosso organismo pela mudança de crenças?
Você também pode fortalecer o sistema imunológico se mudar a interpretação dos fatos. Todo trabalho psiconeuroimunológico é bastante cognitivo e se baseia na revisão das crenças disfuncionais. É preciso não catastrofizar os eventos. É um câncer? É um diagnóstico ruim? Sim, mas quais ferramentas eu terei para ajudar os médicos, o tratamento, a cirurgia, para reduzir a química no organismo? Inclusive, tem um trabalho que faço no qual a gente convida os pacientes a serem cocirurgiões. O paciente faz a cirurgia mentalmente, imaginando as possibilidades, desejando que tudo saia bem. É o princípio do efeito placebo.
O segredo está em pensar positivo?
Vamos encarar o fato do jeito que ele é, ter um pensamento verdadeiro. Se não maximizo, adoto uma postura diferenciada diante do tratamento e as evidências empíricas mostram que os pacientes que se portam assim aumentam a ação do sistema imunológico, a resistência e a qualidade de vida. A aceitação é muito importante nesse processo e o apoio começa pela psicoterapia. É preciso conhecer os sintomas da doença, por exemplo. O conhecimento te dá um poder sobre a situação. Tem outro aspecto muito subjetivo, que é o da fé, e ela não precisa ser religiosa, mas sim a fé na natureza, na vida, na biologia. Tem uma importante pesquisadora, Candace Pert, que diz: “A fé não move montanhas? Então, a mente move moléculas.”
E dá para aprender a fazer isso no consultório?
Temos uma série de aulinhas e exercícios, mas também oferecemos um trabalho no divã, que é o da meditação guiada da hipnose erickssoniana. A proposta é levar o paciente a um estado alterado de consciência, que nada mais é do que um estado de meditação e de relaxamento. Conduzo a hipnose personalizada, que muda o estado mental, a crença disfuncional e interfere no efeito placebo. Isso estimula novos condicionamentos, que, com o tempo, o corpo começa a replicar e adotar.
Quem procura esse tipo de tratamento?
Tenho muitos pacientes com esclerose múltipla, vasculite, psoríase, câncer. Eles vêm a buscar uma maneira de lidar melhor com o tratamento e melhorar a saúde com as técnicas da psiconeuroimunologia. A gente não trabalha com a possibilidade de curar doenças. A ideia é melhorar o tratamento, promover a melhora e a qualidade de vida. Muitas vezes, nos surpreendemos porque há a remissão de sintomas e a pessoa volta às atividades normais com menos efeitos colaterais do tratamento ou do próprio adoecimento. O objetivo é que tanto o sistema imunológico, como o cardiológico, o endócrino e o neurológico vivam em equilíbrio.